Quase no seu centenário, mais uma despedida.
E tantas já haviam sido vividas.
Despedidas de uma irmã.
De um corpo mais ágil.
Dos cabelos escuros.
Mas essa foi diferente.
Como se prepara o coração para a despedida de um grande amor?
Como se reorganiza uma vida vivida a dois por mais de 60 anos?
Confesso que temi.
Temi que o vazio ocupasse tudo.
Temi que o propósito se perdesse junto.
E me lembrei do quanto falamos sobre planejar, mas não sofrer por futuros imaginados.
Lá estava eu sofrendo pelo incerto.
Havia tristeza, sim.
Havia choro que apertava o peito.
Mas havia também algo inesperado:
um novo espaço.
Espaço para passear.
Para retomar a vaidade.
Para cuidar de si depois de uma vida inteira cuidando do outro.
No envelhecimento, o luto não é apenas perda.
É também reorganização.
É reconstrução de identidade.
É a vida, silenciosamente, encontrando outra forma de continuar.
Quando ouvi: “eu estou bem”, senti um calor na alma.
A vida não para.
Ela se refaz.
E, às vezes, floresce de novo.